O mundo dos semelhantes

É interessante notar que a ideia de igualdade nasceu como contraponto à rejeição dos privilégios. É, portanto, muito mais uma tomada de consciência social do que o nascimento de uma ideologia puramente econômica. É bom ter isso em mente porque, mais adiante, Pierre Rosanvallon, cujo raciocínio continuamos a acompanhar, vai mostrar as distinções fundamentais entre igualdade humana, igualdade social e igualdade econômica. Mas nada impede relembrar um pouco de história. Resumo abaixo a análise de Pierre Rosanvallon.

“Sieyès, o autor de Qu´est-ce-que le tiers état? (O que é o terceiro estado?), é o guia indicado para entender como, em 1789, a ideia de igualdade confundiu-se com a rejeição visceral da figura do privilegiado: “o privilegiado considera-se com seus colegas pertencendo a uma ordem separada, uma nação escolhida dentro da nação. Os privilegiados olham para eles mesmos como uma outra espécie de homens.” Tocqueville reencontrará, meio século depois, as mesmas palavras para entender o universo aristocrático: “apenas eles acreditam fazer parte da mesma humanidade” diz ele! Assim ele definirá a democracia como sociedade dos semelhantes.

Como descrever mais precisamente a aspiração da constituição de um mundo de semelhantes que caracteriza este espírito de igualdade. Tocqueville sublinhou, na introdução da Democracia na América, o caráter motor do fator religioso.

Não se pode contestar esta dimensão igualitária da mensagem evangélica. Não se trata porém de um tipo democrático de igualdade: ela é essencialmente espiritual e não se liga a uma perspectiva diretamente social e política. É portanto necessário distinguir bem o que se poderia chamar igualdade de humanidade da igualdade de sociedade para não ficar em considerações imprecisas sobre o papel do cristianismo na gênesis do espírito moderno de igualdade.

Além da visão cristã da igualdade, as teorias jurídicas e filosóficas da igualdade natural tiveram um papel primordial: irrigaram o século XVIII.

Além da herança cristã e das teorias do direito natural, dois outros fatores contribuíram no século XVIII para desestabilizar as representações anteriores do vínculo social e tornar possível a revolução da semelhança. O primeiro foi de ordem antropológica e biológica: derivou da nova apreensão de espécie ilustrada na obra de Buffon. O segundo foi sociológico, ligado à aparição do indivíduo.

  1. Buffon descrevia o ser humano como um ser único e superior por essência, totalmente distinto de todas as espécies naturais pela natureza do seu entendimento, pela duração do seu crescimento e de sua vida, pela existência de um “princípio superior” que lhe permitia multiplicar até o infinito as operações do seu espírito e aumentar a distância que o separava do animal, por uma plasticidade que o levava a alcançar e subsistir em todos os climas e, finalmente, pela complexidade e pela diversidade das sociedades que ele formava com seus semelhantes. Mostrando que a identidade da espécie humana era um fato material, Buffon modificava a percepção. Era uma objetivação que conduzia a uma reeducação do entendimento e dava um fundamento material às considerações morais da dignidade comum a todos os seres humanos: tendia a diminuir o peso das diferenças entre o “homem culto” e o “homem selvagem” assim como entre os habitantes das várias regiões do globo. Sublinhando que o gênero humano era um na origem, sendo sua diversificação circunstancial, Buffon convidava a pensar a categoria da espécie a partir da noção de semelhança. Era uma revolução conceitual. Buffon utilizava a definição da semelhança dada por Leibniz: são semelhantes coisas entre as quais não existe outra diferença a não ser a quantidade. Enquanto a identidade de quantidade constitui a igualdade, a identidade de qualidade define a semelhança. Uma redefinição da relação entre os homens tornava-se pensável a partir dessa abordagem mesmo se ela custará a ser formulada socialmente na nova linguagem: só com o termo genérico de igualdade que se expressará na América e na França a urgência da chegada de um mundo de semelhantes.
  2. A aparição do indivíduo, a passagem do homo hierarchicus a o homo aequalis, segundo a formulação de Louis Dumont, constituiu também um gatilho da demanda moderna de igualdade. É em termos de modalidades de construção do vínculo social que é preciso apreender a questão. Nas sociedades tradicionais, é a relação de identificação a conjuntos de pertence, fortemente estruturados, que é essencial. Os fatores de distinção e de semelhança são bloqueados na vida social. A ruptura decisiva operada pela modernidade é a da complexidade e diversidade. As sociedades tornam-se mais heterogêneas.”

Para quem teve a coragem de chegar até o fim desta longa citação pode ficar uma pergunta: será que tudo isso não soa bem atual? Será que nossa percepção legítima das diferenças acaba ofuscando nossa percepção da nossa identidade humana compartilhada com todos os nossos semelhantes?

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A crise da igualdade

Estamos em tempo de campanha eleitoral tanto nos Estados Unidos como na França. Por aqui teremos as eleições municipais que têm menos peso do que as eleições presidenciais e legislativas. São momentos de discussões, muitas vezes pouco profundas e muito agressivas. Contudo, temas importantes, mesmo pouco aprofundados, acabam aparecendo. Talvez seja o momento de pensar um pouco sobre o que significa a democracia que apareceu nas revoluções americana e francesa do século XVIII muito ligada a uma busca de igualdade. Esse tema tem muita força quando se trata de saber quem deve pagar os vários patos mancos que apareceram nessas últimas crises financeiras e econômicas. Um autor, Pierre Rosanvallon escreveu um livro marcante no fim do ano 2011: La société des égaux, (Paris, Seuil, 2011), A sociedade dos iguais. Pretendo trazer algumas reflexões dele para retomar esse tema que, se ele não for olhado com calma e determinação, pode pautar os anseios de quem se manifesta com uma ousadia cada vez maior porque pensa não ter nada a perder por meio de grandes crises sociais como aquelas que presenciamos de um ano para cá no mundo árabe, na China, no Chile e, ultimamente, na União Soviética. Embora se tratando mais de um resumo do que de uma tradução, deixarei em itálico o pensamento de Pierre Rosanvallon.

Ele começa esse livro refletindo sobre a crise do conceito de igualdade no mundo contemporâneo

“A democracia afirma sua vitalidade como regime no momento em que perecendo como forma de sociedade. A aspiração à ampliação das liberdades e à instauração de poderes servidores da vontade geral fez vacilar, em muitos lugares, déspotas e mudou a face do globo. Todavia esse povo político que impõe cada vez mais sua marca toma cada vez menos corpo socialmente. A cidadania política progride ao mesmo tempo em que regressa a cidadania social. Esse dilaceramento da democracia é fato maior do nosso tempo, portador de ameaças terríveis. Se for prosseguir, é o regime democrático que poderá vacilar. O crescimento das desigualdades é ao mesmo tempo o indicador e o motor desse dilaceramento.

Mais precisamente, o sentimento difuso de que as desigualdades são “fortes demais”, “escandalosas” convive com uma aceitação não formulada de suas múltiplas expressões específicas junto com uma resistência surda à sua correção prática. Existe uma rejeição global da forma de sociedade existente que convive com uma forma de aceitação dos mecanismos que a produzem. Podemos chamar de paradoxo de Bossuet (segundo quem “Deus ri dos homens que se queixam das consequências enquanto eles adoram as causas”) essa situação em que os homens deploram em geral o que eles aceitam em particular. Esse paradoxo é o fundamento da esquizofrenia ocidental.

A transformação da natureza das desigualdades teve um papel nessa evolução. Além das desigualdades tradicionais, entre categorias, apareceram desigualdades dentro das categorias que resultam da dispersão das situações dentro de um determinado grupo (existem mais diferenças entre as várias faixas de executivos do que na média dos executivos comparada com a média dos operários). Como parecem resultar de aspectos individuais mais do que de determinismos sociais, elas são suscetíveis de ser mais facilmente aceitas se foram ligadas a diferenças de mérito socialmente reconhecidas.

A crise da igualdade tem uma dimensão intelectual: ela traduz e acompanha o desabamento de todo um conjunto de representações passadas do justo e do injusto. Ela é igualmente moral e antropológica além dos seus aspectos econômicos e sociais mais evidentes. Deve ser vista como um fato social total e faz vacilar as bases mesmas do comum. O conhecimento cada vez mais preciso das desigualdades não leva a corrigi-las :”saber tudo e dizer tudo sem mudar nada” seria o lema da nova versão do Leopardo (de Lampedusa). A ideia de igualdade tornou-se uma divindade longínqua cujo culto de rotina não alimenta nenhuma fé viva.”

A partir dessa análise Rosanvallon descreve as origens do conceito de igualdade. Veremos isso proximamente.

É interessante, a partir dessa análise, avaliar nossas reações diante do que vivemos e ver se o paradoxo de Bossuet faz sentido para nós. Até que ponto estamos resignados com uma dinâmica que, muitas vezes o pressentimos, não pode nos levar a uma harmonia social que possa se contrapor à violência que vivemos no dia a dia?

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Reforma moral

Termino com esse texto a apresentação de alguns pensamentos de Edgar Morin (“La Voie” A Via). Vale a pena, penso eu, dar a palavra a um filósofo que sempre foi uma testemunha ativa do tempo em que vive. Dessa vez, ele lembra algumas verdades bem fundamentais que devem ser resgatadas para que seja possível a reforma moral ou ética (no fundo as duas palavras são, para muitos autores, sinônimos) da qual tanto se fala.

“Se definirmos a noção de sujeito pela autoafirmação egocêntrica de um “eu” que se situa no centro do seu mundo de modo exclusivo, isso significa que o sujeito comporta um princípio egocêntrico que dá prioridade a si mesmo em relação a qualquer outra pessoa ou consideração. Todavia, ao mesmo tempo, todo sujeito carrega em si um princípio de inclusão num “nós” que o incita a integrar-se numa relação comunitária e amorosa com o outro, com os “nossos” (família, amigos, pátria) e que aparece desde o nascimento na necessidade vital de apego do recém-nascido. Esse princípio de integração pode levar o sujeito até o sacrifício da própria vida para esse “nosso”. O ser humano caracteriza-se por esse duplo software: um o empurra na direção do egocentrismo até sacrificar os outros para o próprio proveito; o outro o leva ao sacrifício de si para os outros em função do altruísmo, da amizade, do amor. Nossa civilização tende a favorecer o software egocêntrico.

Em função da trindade humana: indivíduo, sociedade, espécie, é preciso conceber uma ética em três direções:

  1. Ética individual: ela necessita na consciência e na personalidade de cada um de um princípio de autoexame permanente porque, sem saber, nos iludimos e nos mentimos a nos mesmos. Se quisermos a reforma moral, não podemos fazer a economia do autoexame e da autocrítica. Isso permitirá uma melhor compreensão do outro.
  2. Ética cívica.
  3. Ética do gênero humano: cada um pode hoje agir para a humanidade, quer dizer contribuir para a tomada de consciência da comunidade de destino de todos e inscrever-se nela como cidadão da Terra-Pátria.”

Trata-se de uma utopia? Talvez de uma questão de bom senso!

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Reforma da vida

Quero retomar a leitura de Edgar Morin no livro La Voie (A Via); ele desenvolve mais dois pontos: a reforma da vida e a reforma da ética. Em relação à reforma da vida, objeto desse post, a advertência é forte: existiria uma cegueira que impediria de perceber as dimensões de barbárie não reconhecidas no nosso “viver juntos” atual? Coloquei entre aspas o que é mais um resumo do que uma tradução do texto de Morin.

“Acreditamos que somos civilizados enquanto a barbárie toma conta interiormente de nos no egoísmo, na inveja, no ressentimento, no desprezo, na ira, no ódio. Nossas vidas são deterioradas e poluídas pelo nível muitas vezes calamitoso das relações entre indivíduos, sexos, classes, povos. A cegueira em relação a si mesmo e ao outro é um fenômeno cotidiano. A incompreensão do longínquo como do próximo é geral. A possessibilidade e o ciúme corroem os casais e as famílias: quantos infernos domésticos! Quantos microcosmos infernais mais vastos no ambiente de trabalho, na empresa, na vida social! A inveja e o ódio envenenam a vida não só dos invejados e dos odiados mas também dos que invejam e odeiam. A desumanidade e a barbárie estão sempre prontas para surgir em cada humano civilizado. As mensagens de compaixão, de fraternidade, de perdão anunciadas pelas grandes religiões, as mensagens humanistas apenas trincaram as armaduras das barbáries interiores.

As finalidades da reforma da vida podem ser assim enunciadas:

  1. 1. Serenidade-intensidade: isso requer um caminho educativo ou autoeducativo que comporta:
    1. a. A humanização das nossas pulsões e das nossas emoções
    2. b. A capacidade rir de si mesmo.
    3. c. A dialógica permanente entre razão e paixão.
    4. d. O desenvolvimento do autoexame e da autocrítica.
    5. e. A possibilidade de construir uma autoestima pelos próprios atos e pelo próprio comportamento.
    6. f. A preservação de um tempo de meditação.
    7. g. A libertação das intoxicações consumistas.
    8. h. A alternância sobriedade/festas.
  2. 2. Autonomia/comunidade
  3. 3. Convívio/compreensão”

É um bom roteiro de reflexão tanto para os indivíduos como para as comunidades às quais cada um pertence.

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Perda de confiança na economia?

Acabo de ler na revista L´Expansion (nº77 janeiro 2012) uma entrevista muito interessante do filósofo e economista Jérôme Batout. Gostaria de citar, em tradução livre, alguns trechos porque ele traz uma visão interessante da relação entre os europeus e a economia. É uma interpretação interessante que pode ajudar a olhar por um outro ponto de vista os acontecimentos atuais.

“Os seres humanos sempre agiram sobre o que os circunda. Porém, eles nem sempre deram a essa ação a mesma finalidade. Nas sociedades mais antigas existe uma economia não voltada para o crescimento mas sim marcada por uma vontade de constância: os seres humanos agem com a finalidade de re-formar identicamente o mundo tal qual eles acreditam tê-lo recebido dos seus antepassados. Segundo um estudo da OCDE, o fenômeno chamado “crescimento econômico” apareceu no segundo milênio da nossa era a partir da Europa Ocidental: é portanto relativamente recente.

Dentro do último milênio de desenvolvimento, podemos situar duas intenções distintas. No século XIX, transformava-se a realidade visando um horizonte estacionário da economia: a abundância; é a visão que aparece nos economistas clássicos: Marx, Smith, Ricardo, Malthus e, até Keynes, existe a ideia que chegará o momento da “resolução do problema econômico”.

Se as sociedades mais antigas estão na vontade de constância e se as sociedades europeias estão, até a segunda guerra mundial, numa vontade de abundância, poderíamos dizer que estamos hoje na vontade de crescimento. Na prática, parece que é a mesma coisa: transforma-se a realidade. Todavia, no registro das crenças, vem a reviravolta: acontece quando os homens cessaram coletivamente de acreditar que pode existir algo como um momento de abundância em que todos os problemas estarão resolvidos. Com o crescimento, e essa é a diferença com a abundância, somos órfãos de uma crença no fim da história. Pode parecer pouco. Todavia essa situação de um crescimento, sem outro horizonte além dele mesmo, é angustiante.

A dissipação da crença na abundância pode estar fortemente ligada à experiência dos vários regimes totalitários. As religiões seculares desqualificaram o fim da história: as doutrinas pareciam tentadoras contudo sua colocação em prática revelou-se abominável. Este momento totalitário corresponde à última tentativa de governar as sociedades humanas a partir de uma exterioridade religiosa. Depois da guerra, é por uma outra exterioridade que fomos tentados de governar o político: a economia. Impressiona muito o quanto, depois de 1945, espera-se que a economia nos ajude a governar politicamente as democracias. Funcionou durante alguns decênios porque a vontade de crescimento beneficiou depois da guerra de um objetivo explícito: a reconstrução. O problema é que essa finalidade é provisória.

A tomada de consciência muito lenta e muito progressiva que nossa ação não tem horizonte, a não ser o crescimento dos nossos meios, criou as condições da crise atual. Pela primeira vez, estamos confrontados não com uma crise econômica mas sim com uma crise da economia. Durante alguns decênios, podemos ter ignorado o sentido que dávamos coletivamente à transformação do mundo. Essa pergunta volta brutalmente. Poderíamos dizer, parafraseando Marcel Gauchet, que estamos num momento de “saída da economia”. Isso não quer dizer que a economia cessa de existir: significa simplesmente que a economia deixa de ter o papel de exterioridade estruturante das comunidades humanas.

Por que a última crise começou por uma crise da finança?

Dos Médicis até Keynes, a finança dos Modernos consiste em investir fundos numa ação, aceitando de correr um risco mais ou menos grande, porque se espera um desfecho favorável. Quando temos um determinado objetivo, sabemos usar a finança. Tudo muda num contexto de vontade de crescimento: quando o crescimento é o único horizonte, nenhum outro fim vem dar um sentido para finança que se torna pura acumulação de meios financeiros sem outra referência para governar seu dinamismo. Eis a razão pela qual é na finança que se desvela o começo do problema maior para nossas sociedades, problema ligado a uma vontade que vagueia sem mais saber o que ela quer a não ser seu próprio crescimento.

Qual é a originalidade da crise atual?

Sua originalidade tem a ver com o questionamento da economia como princípio de governo da nossas sociedades. O governo das democracias tinha sido entregue à economia: tínhamos deixado de lado o desafio do governo político de uma sociedade livre.

É preciso acrescentar que todas as zonas de mundo não se situam no mesmo estágio de crença. Enquanto a vontade de crescimento dos Europeus começou a se desgastar, a dos Chineses está no seu grau mais forte. A fronteira entre os países emergentes e os outros não tem a ver com taxa de crescimento mas sim com taxa de crença.

Daí uma enorme ilusão de ótica: cremos que os Europeus estão acabados. Na realidade, a Europa é a primeira zona a perceber o absurdo da sua vontade de crescimento: nesse sentido ela está na vanguarda da história. É aí que, na maior confusão, procura-se o futuro do governo político de uma sociedade, estando claro que a economia esgotou suas forças nesse terreno. O desafio é gigantesco.”

É muito fácil substituir uma crença por outra. Mais difícil é assumir a própria liberdade e a própria responsabilidade diante da complexidade do mundo que, como humanos, ajudamos a criar…

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Feliz Ano Novo!

Esse ano começa cheio de desafios, de medos e de esperança. Acho que passaremos por esses sentimentos! Que a esperança vença e nos ajude a lidar com os desafios. Para que isso seja possível, precisamos de lucidez e de coragem. Nesse blog, espero poder contribuir trazendo analises e reflexões de autores não tão conhecidos nas nossas bandas!

Feliz 2012!

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Feliz Natal!

Esse ano, queria deixar para vocês que refletem, além do Papai Noel, sobre o sentido do Natal, uma reflexão de um dos teólogos mais perspicazes e mais lúcidos, Joseph Moingt. A concisão e a profundidade desse texto, fruto de tantos anos de reflexão pode inspirar esses dias.

“A fé cristã não se identifica absolutamente com a religião que a veicula, antes de tudo porque sua origem não é um fato religioso no sentido próprio dessa expressão. Por muitos aspectos, Jesus pode ser considerado um homem de religião: era um crente, pertencia à religião de Israel, reunia discípulos e carrega vários pontos comuns com outros personagens religiosos conhecidos. Por outros aspectos, ele escapa dessa classificação: ele se afasta do passado religioso do seu povo, é rejeitado por sua comunidade religiosa, não é o fundador de uma instituição cultual e deixa para seus discípulos nenhum ritual, nenhum código, nem mesmo um credo; ele se volta para o futuro, ele anuncia uma “boa nova”, a do Reino que acontece, que está próximo para ser acolhido na fé. A fé que ele preconiza é a confiança nele como representante de Deus, a acolhida de sua palavra como palavra de Deus, o engajamento para seguir sua via como caminho que conduz para Deus, a partilha de sua esperança como acesso à casa de seu Pai. Por causa de todos esses traços insólitos, a fé nele nasceu menos diretamente de sua pregação e de sua ação do que de sua morte anunciada como ressurreição e reinterpretando seu passado.

Assim a fé cristã tomará consciência de si como de um dom, gratuito e imprevisto, recebido do Espírito de Deus e não de uma herança carnal, como de uma inspiração que brota para sempre, princípio de releitura da história e das Escrituras, de renovação e de inovação, como de uma libertação de toda herança religiosa, afim de que o homem, repudiando a justiça que vem do culto, apresente-se também diante de Deus numa atitude gratuita, colocando sua confiança unicamente na morte de Cristo por amor dos homens e na fé que ela inspira: fundada nas Bem-aventuranças, esta fé sente-se obrigada ao serviço do próximo, ultrapassada pela caridade, convidada ao encontro do seu Senhor, sabendo que não é invocá-lo no templo que salva, nem de ter falado e agido no seu nome; é perdoar aos inimigos e dar um copo d´água a um desconhecido porque Deus perdoa a quem perdoa e o Cristo se reconhece em todo home sofredor. Tal fé não pode ser localizada nos tempos nem nos lugares sagrados; nunca possuída, sempre em migração, ela só pode ser recebida a todo momento diretamente do Espírito de Deus; nesse sentido ela transcende a religião que a carrega.”

Feliz Natal para todos! Estarei de volta após o dia 12 de Janeiro.

Reforma da educação

Continuando a leitura de Edgar Morin no livro La Voie (A Via), passamos agora à reforma da educação. Ele a contextualiza olhando para as cegueiras que impedem nossa capacidade de religar os conhecimentos e que favorece a unidimensionalidade.

“Assim, as cegueiras resultantes de conhecimentos parciais e dispersos, próprias de uma visão unidimensional de todas as coisas, vão junto com as miragens da sociedade do conhecimento e os do pleno uso da racionalidade.

Se nossos espíritos permanecem dominados por um modo mutilado de abstrato de conhecer, pela incapacidade de apreender as realidades na sua complexidade e globalidade, se o pensamento filosófico desvia-se do mundo em vez de enfrentá-lo para entendê-lo, então, paradoxalmente, nossa inteligência nos cega.

O problema crucial do nosso tempo é o da necessidade de um pensamento apto a aceitar o desafio da complexidade do real, quer dizer de apreender as ligações, as interações e as implicações mutuais, os fenômenos multidimensionais, as realidades ao mesmo tempo solidárias e conflituosas.(..).

A reforma da educação significa ajudar a aprender a viver. Viver é viver enquanto indivíduo aprendendo a lidar com os problemas da vida pessoal; é viver enquanto cidadão pertencendo a sua nação; é viver na nossa pertença ao humano. Os problemas fundamentais e globais do indivíduo, do cidadão, do ser humano necessitam, para ser considerados, reunir um grande número de conhecimentos separados em disciplinas: vemos somente os fios separados de uma tapeçaria. Identificar os fios separados individualmente nunca permite conhecer o desenho de conjunto da tapeçaria.

Então o ensino que parte de disciplinas separadas em vez de alimentar-se delas para tratar dos grandes problemas quebra as curiosidades naturais de toda consciência juvenil que se abre: o que é conhecimento pertinente? Quem é o homem? A vida? A sociedade? O mundo?

Um novo sistema de educação fundado na religação, radicalmente diferente do atual, deveria substituí-lo. Esse sistema permitiria favorecer as capacidades do espírito de pensar os problemas individuais e coletivos a partir de sua complexidade. Ensinaria também a situar toda informação, todo dado no seu contexto, até mesmo no sistema do qual fazem parte.

Ensinaria também as diversas formas de racionalidade (teórica, crítica, autocrítica), as perversões da racionalidade (racionalização, razão instrumental), a necessidade de uma racionalidade aberta (sobre os dados que a contradizem e sobre a crítica externa).

Ensinaria também a ecologia da ação que nos indica que, quando iniciada, a ação sofre as inter-retro-ações do meio onde ela intervém, escapa à vontade do seu iniciador e pode ir na direção contrária à intenção do ponto de partida. Ensinaria então que toda decisão, num mundo incerto, comporta uma aposta e necessita uma estratégia, quer dizer a capacidade de modificar a ação em função dos obstáculos encontrados e das informações recebidas no decorrer da ação.

Que tal refletir se nossas escolas estão nessa linha, principalmente nossas escolhas de negócios que deveriam formar líderes: paradoxalmente, sua inteligência orientada numa visão unidimensional pode cegá-los…

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Reforma do pensamento

Estou mais uma vez dando a palavra a Edgar Morin traduzindo um trecho do livro La Voie (A Via). Esse texto me parece esclarecedor em relação ao desprezo que muitos demonstram em relação à reflexão, privilegiando um aparente pragmatismo. Essa atitude rejeita de fato um certo modo de teorizar e racionalizar que se esgotou. Vamos ao texto:

Nosso modo de conhecimento subdesenvolveu a aptidão a contextualizar a informação e a integrá-la num conjunto que lhe dá sentido. A hiperespecialização quebra o tecido complexo do real, a primazia da quantificação oculta as realidades afetivas dos seres humanos.

Nosso modo de conhecimento parcelado produz ignorâncias globais. Nosso modo de pensamento mutilado conduz a ações mutiladas. Com isso se combinam as limitações

  1. do reducionismo (que reduz o conhecimento das unidades complexas a o dos elementos supostamente simples que as constituem).
  2. do binarismo que decompõe em verdadeiro/falso o que é ou parcialmente verdadeiro ou parcialmente falso, ou ao mesmo tempo verdadeiro e falso.
  3. da causalidade linear que ignora os ciclos retroativos.
  4. do maniqueísmo que só vê a oposição entre o bem e o mal.

A reforma do conhecimento clama por uma reforma do pensamento. A reforma do pensamento clama por um pensamento da religação que possa religar os conhecimentos entre si, religar as partes com o tudo e o tudo com as partes, e que possa conceber uma relação do global e do local, a do local ao global.

Essa reforma comporta um caráter epistemológico e reflexivo. Epistemologicamente, trata-se de substituir ao paradigma que impõe conhecer por disjunção e redução um paradigma que pede para conhecer por distinção e conjunção. A reintrodução da reflexividade requer um retorno autoexaminador e autocrítico permanente do espírito sobre si.

É preciso dissipar a ilusão que pretende que tenhamos chegado à sociedade do conhecimento. De fato chegamos à sociedade dos conhecimentos separados uns dos outros, separação que nos impede de religá-los para conceber os problemas fundamentais e globais tanto nas nossas vidas pessoais quanto nos nossos destinos coletivos.

Enfim é preciso dissipar a ilusão segundo a qual nosso conhecimento, incluindo o científico, disporia da plena racionalidade. De fato, existem várias formas de racionalidade: a racionalidade crítica que usa a dúvida; a racionalidade teórica que edifica teorias aplicando-se de modo coerente aos fenômenos; a racionalidade autocrítica, consciente dos seus limites e da degradação da racionalidade em racionalizações (concepções intrinsecamente lógicas, mas que não respondem a nenhuma base empírica); a razão instrumental, denunciada por Adorno e Horkheimer, que está a serviços de empreitadas nocivas, criminosas ou dementes, como o campo de concentração nazista.”

Cabe agora formar grupos que possam se organizar e entrar numa verdadeira busca do pensamento e da compreensão.

Teoria e Doutrina

Escrevi no post anterior que ia abrir novas categorias, entre elas a categoria “Teoria”. Essa definição de teoria por oposição a doutrina enunciada por Edgar Morin no seu último livro “La Voie, pour l´avenir de l´Humanité” (A Via, para o futuro da Humanidade) expressa bem a linha de reflexão que eu gostaria de compartilhar.

“É preciso ensinar a diferença entre teoria e doutrina. Uma teoria, científica ou não, é viva na medida em que é capaz de responder a suas críticas por uma argumentação pertinente ou coerente, na medida em que ela pode dar conta dos fatos objetados, eventualmente modificando-se pela integração dos mesmos. Quando for demonstrado que ela cessa de ser pertinente, ela aceita a própria morte. O que é próprio a uma teoria científica ou, simplesmente, viva é que ela é biodegradável. Enquanto uma doutrina recusa a morte fechando-se aos argumentos contrários, sempre referindo-se ao pensamento infalível do seu fundador.”

Muito mais do que pensar fora da caixa, a reflexão teórica pode ser um modo de ajudar certas doutrinas a morrer para que o pensar possa renascer sempre. Acontece que precisamos nos livrar da nostalgia do sepulcro!

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